"Não há negros no Ceará" - Essa expressão foi bastante comum entre os cearenses até meados da década de 80, e ainda hoje há quem acredite nessa falácia.
O Brasil começou a ser povoado a partir de 1532, os negros começaram a ser trazidos da África para o nosso país a partir de 1540, inicialmente eles vinham da região central e oriental do continente, e a partir da segunda metade do século XVII, começaram a ser trazidos da região ocidental, principalmente para os portos de Recife e Salvador.
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| Mapa do Ceará de 1629, o interior completamente inóspito. |
O território hoje pertencente ao Ceará, foi doado pela coroa portuguesa, a Antônio Cardoso de Barros, nomeado donatário do território, mas nunca se interessou em tomar posse da terra, com isso o Ceará passou muitos e muitos anos sem qualquer sinal de povoamento europeu, a primeira tentativa oficial de povoamento teve inicio em 1603, liderada por Pero Coelho de Sousa, mas fracassou devido a forte seca, dificuldades de encontrar água potável e forte resistência indígena. A segunda tentativa ocorreu em 1607, liderada por Francisco Pinto, Luís Figueiras e padres da Companhia de Jesus, mas acabou fracassando, pois o grupo foi atacado por indígenas, sendo que todos foram mortos, exceto Luís Figueiras que conseguiu fugir. A terceira tentativa foi liderada por Martim Soares Moreno entre os anos de 1611 e 1631, a única tentativa que prosperou, inciando finalmente a ocupação do Ceará, mas sem muita expressão, sendo que até a metade do século XVIII, o interior do estado era praticamente desértico. Todos esses fatores contribuíram para que a presença negra no Ceará fosse menor do que no restante do Nordeste e do Brasil, mas não inexistente.
No auge do tráfico negreiro, as praias do Ceará eram pontos de parada de navios que vinham abastecer o mercado de escravos nos grandes centros escravagistas do país, mas no Ceará em si, só quem tinham escravos eram as famílias mais ricas, como forma de ostentação, já que possuir um escravo era algo deveras custoso para o bolso da maioria dos proprietários de terras, que preferiam escravizar os nativos. Em 1877 o Nordeste enfrentou o que a história chamou de "Grande Seca", uma das mais devastadoras secas nos sertões que resultou na morte de 500.000 pessoas, de um total de 800.000 que viviam na região, dos sobreviventes 68.000 migraram para outros lugares do país, a calamidade se estendeu até 1879. Nessa época também, os fazendeiros e coronéis foram obrigados a se desfazer de seus escravos negros, vendendo-os para as regiões Sul e Sudeste do Brasil, o que enfraqueceu ainda mais a continuidade da escravidão negra no Ceará. Em 1883, Mossoró, cidade norte-riograndense, libertou seus escravos, motivando movimentos abolicionistas da região. Em 1884 o Ceará acabou libertando seus cerca de 34.000 escravos remanescentes das vendas da "Grande Seca", sob forte pressão. Por causa disso, José Bonifácio de Andrada e Silva, nomeou o Ceará como "Terra da Luz", sendo o primeiro estado do país a abolir a escravidão. A população livre no Ceará em 1884 somava cerca de 730.000 pessoas.
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| Jornal Cearense de 1884 celebrando o fim da escravidão. |
Após a abolição no Ceará, muitos negros sabendo disso, começaram a vir de outros lugares na esperança de serem acolhidos na "Terra da Liberdade", mas ao chegarem muitos foram deportados para suas terras de origem e sofreram as penalidades de suas fugas, na época esses acontecimentos causaram revolta nos abolicionistas. No entanto, as perseguições não impediram que mais e mais negros fossem chegando, essas pessoas procuravam os lugares mais afastados para se refugiar, muitos acabaram se misturando aos indígenas que também se refugiavam nesses lugares.
Durante toda a sua história o Ceará também recebeu mulatos e negros livres, que vinham de outras províncias.
No Ceará Se Não é Branco é Negro
Os portugueses chamavam os indígenas de "Negros da terra". No Ceará não se faz muita diferença de indígena e negro, o que importa mais é a cor de pele, se não é branco é negro.
Segregação Racial no Ceará
Por ter sido povoado tardiamente o Ceará recebeu muitas famílias nucleares, ou seja, pais com seus filhos, divergindo do que era comum no povoamento em outros estados da região Nordeste, onde chegaram primeiramente homens brancos, esses se casavam com indígenas e depois passaram a se casar com negras. Essas famílias promoviam a segregação de diversas maneiras, mas principalmente proibindo casamentos mistos, e como as opções eram poucas a endogamia entre essas famílias atingiu níveis altíssimos que repercutem até hoje.
O famoso Padre Cícero que o diga, pessoas mais antigas dizem que o religioso não celebrava casamentos mistos, seu lema era "Cada panela tem sua tampa". Na ocasião do "Milagre da Hóstia", uma das justificativas dos oficiais do Vaticano para desqualificar o ocorrido foi o de que a religiosa, Beata Maria de Araújo, era mestiça, "fruto de uma abominável amalgama entre duas raças horrendas" - Maria de Araújo era descendente de indígenas e negros.
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| Beata Maria de Araújo. |
Festas dos Brancos e Festas dos Negros
Houve um tempo no Ceará em que as festas eram separadas de acordo com "a raça", os brancos não iam as festas dos negros, nem os negros podiam entrar nas festas dos brancos, sob o risco de penalidades para quem descumprisse a regra.
Expressões Racistas no Ceará
Existem diversas expressões racistas que circulam no dia-a-dia do cearense, abaixo encontram-se algumas dessas expressões:
"Tô pura (o) nega (o)" - Quando se está suado, sujo, fedorento.
"Preto igual o Cão" - Se referindo a algo ou alguém de cor negra.
"Um homem e um nego" ou "Uma mulher e uma nega" - Usado para citar dois indivíduos, como se um fosse humano e o outro não.
"Nego preto" - Expressão pejorativa para se referir a pessoas negras.
"Carnaúba" - Expressão pejorativa para se referir a pessoas negras.
"Neguinha do Pajeú" - Expressão pejorativa para se referir a pessoas negras.
"Nega do doce" - Expressão pejorativa para se referir a pessoas negras.
No Ceará, os criadores de porcos tem o costume de chamá-los de "nego" e "nega".
Desconstrução do Negro
No Ceará ocorre uma contínua desconstrução do negro na essência do que significa ser negro, um dos fatores se deve ao profundo espírito religioso cearense que só fez aumentar o abismo racial, por séculos a tradição católica através de seu simbolismo envolvendo o branco - sinônimo de pureza - impregnou na mente do cearense a ideia do "melhor branco". Porém, o recente advento de outras ideologias cristãs, como a evangélica, não melhoram o cenário, abrindo ainda mais a ferida da história negra no Ceará.





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